quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

3º dia, 20/12; Alfredo Wagner a Bocaina do Sul. 81Km



Foi um dia de regularidade entre subidas e descidas, isso nos alegrou bastante depois de todo sofrimento que foram as subidas até então. Ok, ainda subimos mais que descemos acredito eu, mas a pedalada estava ótima. Foi neste pedal que o grupo começou a render em pelotão, fazer o sistema de revezamento pra aproveitar o vácuo, provavelmente porque agora o terreno permitia, era mais plano e a velocidade era bem maior, diferente das sofridas e vagarosas subidas já supracitadas.

Neste dia começaram também de forma mais aberta e notória, as divergências. Conviver e grupo é realmente uma arte. As retas ajudaram a mostrar que temos ritmos muito diferentes; de pedalada e de praticidade. Rolaram alguns stress, coisa normal num grupo. Nas subidas não se podia avaliar o rendimento do grupo, pois que todos estavam na mesma: pernas gritando e suor escorrendo. Mas já se podia perceber que o grupo tomava naturalmente uma formação de 4 na frente e 2 que ficavam pra trás. O combinado era que caso alguém da retaguarda quisesse parar, ou começasse a ficar pra trás, era pra avisar e então o grupo parava pra dar uma relaxada e tomar uma água. Isso funcionou bem durante um tempo, na subida da serra principalmente. Mas o fato é que queremos chegar até o Chile, é dureza... o grupo agora nas retas tem que render junto! Neste trecho começamos a ter amostras de que isso seria difícil.


Bom, mesmo com discussões, chegamos bem humorados em Bocaina do Sul. Havia quem quisesse tocar direto até Lages, pois faltavam apenas uns 45Km, mas foi respeitado o limite de boa parte do grupo que já estavam cansados.

Chegando em Bocaina, pedimos informação para o guarda que cuidava da prefeitura. Eles nos orientou que fossemos pedir abrigo na igreja da cidade, o padre é gente boa. Lá fomos... O Rossano, por afinidade, acabou entrando num hospital psiquiátrico onde foi reconhecido por um dos pacientes que gritou da janela alguma saudação e arremessou uma camiseta pedindo para que ele levasse até o Chile. Bom, vou me conter nos comentários mas, os locos se reconhecem de longe. Foi hilário.


Fomos incrivelmente muito bem recebidos pelo Padre Roberto e pelo Padre João Pedro. Ficamos na casa paroquial, onde tinha um chuveiro frio e bons colchões. O padre Roberto nos ofereceu uma janta sensacional, e muito papo noite adentro. Esse padre surpreendeu a todos com sua visão de mundo e mente aberta. Viramos fãs do cara. Esse papo com o padre vai pro documentário, foi demais! Incrível o papel de um padre num lugar como Bocaina; ele é provavelmente a pessoa mais esclarecida do lugar, quem mais estudou, e quem mais faz pelo povo. Contou-nos histórias dos escravos alforriados ainda antes da moça Isabel canetear a lei, negros que subiram a serra e lá se estabeleceram, pois que a caça da baleia fora proibida e então eles foram libertados... Contou-nos sobre as peculiaridades da festa do divido ali de Bocaina, da “Festa das tendas” também, explicou a origem do nome da cidade... Explicou também tudo sobre o ciclo da madeira, da monocultura e do empobrecimento da região... Entre outros assuntos atuais da igreja católica que a galera queria saber. O Padre Roberto ficou de nos enviar em fevereiro, uma cartilha que a diocese está elaborando; são orientações para as igrejas e seus seguidores, que nela constará várias orientações sobre sustentabilidade. Uma preocupação recente no seio dos debates católicos.




Jantamos, conversamos bastante, e depois dormimos. Aqui vale narrar um episódio bizarro: - Aquele clima de “temos que nos comportar bem na igreja” imperando no dormitório, vários debates ainda rolando de assuntos suscitados na janta... o Rossano tomando banho... E agora uma cena hilária, que me vem à mente em câmera lenta, que coincidência: O Rossano saindo na metade do banho, molhado, pelado, em direção as roupas dele, e o padre entrando no recinto, com cara de aviso, dizendo que se precisarmos de alguma cooooooooooooooooooooooisa, opaaaaaa.... tudo bem tudo bem. Constrangimento rapidamente contornado com bom humor.


Hahahahahahaha.


Essa foi a passagem por Bocaina do Sul. De manhã, o padre gentilmente nos ofereceu um delicioso café da manhã ao estilo colonial e partimos pra Lages.

2 comentários:

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  2. eu gostaria de dizer ao amigo visitante que a hospitalidade faz parte da nossa cultura e lamentar que ainda se ache que o fato de um município ser pequeno deva seu povo ser pouco estudado, não é verdade. o poder público investe muito em educação e todos os anos são formados dezenas de jovens bocainenses nos diverso cursos superiores das universidades e faculdades de Lages.Mas estão convidados a voltar e com a certeza de uma visão mais aberta e sem preconceitos

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